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Somos donos de nossos atos, mas não donos de nossos sentimentos. Somos culpados pelo que fazemos, mas não somos culpados pelo que sentimos. Podemos prometer atos, mas não podemos prometer sentimentos. Atos são pássaros engaiolados. Sentimentos são pássaros em vôo". (Mario Quintana)
Conforme supõe o histórico religioso-cristão, Adão e Eva, através do pecado original e a consequente expulsão do paraíso pelo Criador, seriam os responsaveis diretos pelo sentimento de culpa experenciados até hoje pelo homem. Fato agravado ao longo da história do cristianismo, principalmente a partir da época medieval pelo comportamento da Igreja - o chamado "poder espiritual" - que mantinha o domínio das massas ao afirmar, sob a autoridade da Bíblia, o terror dos eternos sofrimentos do inferno e o pavor aterrorizante para os que jamais atingiriam o paraíso celestial se não fossem cristãos e se não admitissem as "revelações" ou interpretação das Escrituras Sagradas elaboradas pela teologia cristã.
Verdade ou não, o fato é que experimentamos durante o decorrer dos séculos o sentimento de culpa como um obstáculo ao nosso crescimento pessoal, profissional e espiritual. Experiência real que indiscriminadamente tem gerado sofrimento, dramas pessoais e somatizado muitas doenças na humanidade.
Para Nietzsche e Freud, o objetivo primario de todo o homem é a satisfação integral de suas necessidades. A partir do momento que isso não ocorre, surge um fenomeno interessante: os instintos voltam-se para trás, para o interior, para dentro do próprio homem. A repressão dos instintos não os eliminam, mas os redirecionam: se eles não obtiverem sucesso em sua evasão, serão introjetados, internalizados. É deste processo que surge a culpa. Em Nietzsche, a doença é oriunda da interiorização do homem - fato que o torna um animal dígno de interesse. Em Freud, ela é vista como um dos maiores empecilhos para a cura de seus doentes. Este tema torna-se central tanto em Nietzsche quanto em Freud: o primeiro relaciona a culpa à moralidade; o segundo relaciona ao diagnóstico das neuroses.
Para o terapeuta alternativo Francisco Gentina, "a culpa e a doença é o aviso que estamos agindo mal. A inconfundível Lei de Ação e Reação mostra no físico as interferências negativas plasmadas no corpo astral pelos pensamentos e atos que geram peso na consciência". E segue: "A autoculpa abala os mecanismos de defesa do organismo e descarrega no orgão mais frágil, todo o veneno gerado pelos cliches mentais. Como clips rodando indefinidamente na mente e a cada acesso na lembrança, glândulas produtoras de anticorpos, não vencendo a demanda, permitem a invasão de substâncias venenosas aos chamados orgãos de choque, instaurando a patologia. Os remédios prescritos mascaram o efeito, mas difícilmente eliminam a causa". E completa: "Estudos científicos comprovam o efeito do perdão nestes casos. Eliminando o ódio, o rancor ou a mágoa, extirpa-se a causa e consequentemente o efeito não tem mais razão de existir, diluindo por si mesmo, baseado no tempo dos sentimentos geradores da situação patológica. Pesquisas sobre o assunto demonstram que a quase totalidade dos óbitos por câncer nas suas mais variadas formas, tiveram as grandes mágoas como causadoras da doença".
Antonio Araujo, psicólogo, informa-nos "que a tarefa da culpa é amar e depender do pior, construindo um mecanismo pessoal e secreto de insatisfação diária, como uma espécie de desafio constante para uma personalidade ambivalente e receosa de tocar aquilo que está tão próximo: viver plenamente". E completa: "O segredo e mistério da dor passam a adquirir um significado quase místico, de expiação por algo que sequer se compreende profundamente..."
COMENTARIO
Se consideramos que a culpa é um sentimento real, que ele existe, assim como o arrependimento e a mágoa são os seus "derivados" mais imediatos que afligem o homem desde tempos imemoriais, podemos questionar: "De quem é a culpa pela existência do sentimento de culpa?"
A ciência oficial faz a sua parte, se esforça, explica até a tênue linha divisória que separa a natureza humana entre o físico e o espiritual. As religiões de fé não raciocinada, geralmente, contribuem para que o sentimento de culpa permaneça agindo indefinidamente nos corações e mentes das pessoas envolvidas por essa negativa energia. No entanto, diante deste confuso quadro que envolve um dos sentimentos mais arraigados ao psiquismo humano, esquecemos que existem as Leis Divinas que regem o Universo, e que, portanto, nos encontramos íntimamente - de corpo e alma - ligados a essas leis....
Nesse sentido, Joanna de Ângelis, em "Culpa e Consciência", através da psicografia de Divaldo P. Franco, esclarece-nos: "A culpa encontra-se esculpida nos alicerces do espírito e manifesta-se em expressão consciente ou através de complexos mecanismos de autopunição consciente. Suas raízes podem estar fixadas no pretérito - erros e crimes ocultos que não foram justiçados - ou em passado próximo, nas ações da extravagância ou da delinquência".
Sobre o arrependimento que liberta do sentimento de culpa, Joanna de Ângelis registra: "Arrepender-se de comportamentos equivocados, de práticas mesquinhas, egoísticas e arbitrárias é perfeitamente normal. A soma das tuas ações positivas quitará o débito moral que contraíste perante a Divina Consciência, porquanto, o importante não é a quem se faz o bem ou o mal, e sim, a ação em si mesmo em relação à harmonia universal. Como consequência, a culpa deve ser superada mediante ações positivas, reabilitadoras, que resultarão dos pensamentos íntimos, enobrecedores".
O processo de autoconhecimento, tanto no sentido psicológico quanto no sentido espiritual, ou seja, no sentido de sua interdimensionalidade, nos direciona para que a culpa leve-nos à reflexão, e a reflexão com fé nos leve à ação, à reparação e à eliminação da própria culpa. No entanto, temos observado que o desgosto pela vida nos dias atuais é consequência direta de uma supervalorização da culpa, que não passa, geralmente, ao arrependimento que constrói e liberta. Ao contrário, o homem, ainda preso à inércia e à falta de fé, prefere o lamento à ação, numa clara demonstração de que não está preparado para renovar-se como espírito.
Em "O Livro dos Espíritos", questão 919, Santo Agostinho deixa-nos uma instrução de meditação diária que nos leva a isolar os pontos que devemos reavaliar sobre os quais temos responsabilidade: "Fazei o que fazia quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguem tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma".
Flávio Bastos

criado por Milady
01:09:20
criado por Milady
01:04:38A história da humanidade tem mostrado que o nosso olhar sobre a vida passa pelos valores herdados de nossos ancestrais guerreiros. Basta-nos, para isso, observarmos que a cultura do orgulho, da ambição, da sedução e demais jogos de poder são energias que "incorporamos" e projetamos através do olhar que busca ascenção no mundo das aparências, onde geralmente, ainda perseguimos a vitória... o triunfo a qualquer custo.
Dizia o escritor grego Plutarco sobre o olhar guerreiro: "Os olhos lançam dardos de fogo que golpeiam tudo aquilo que veem"; ou a inscrição na múmia da pitonisa egípcia muito respeitada nos tempos do faraó Amenófis IV, onde se lia: "Desperta da tua prostração e o teu olhar triunfará sobre tudo quanto se faça contra ti".
Portanto, o olhar humano é uma consequência coletiva de nossa cultura milenar baseada em valores guerreiros, mas também, uma decorrência específica baseada em escolhas individuais da trajetória de vivências de cada espírito. Crendices à parte, o conhecimento espiritual assegura que o olhar possui uma força proveniente de uma irradiação que surge do olho humano. Esta teoria é conhecida desde a remota antiguidade, testificada na Bíblia e em vários escritos gregos e romanos.
O olhar humano esconde uma força que para muitos pode passar despercebida; contudo, muitas vezes, um simples olhar expressa mais de cem palavras. A sua energia pode produzir muitos efeitos diferentes, pois com ela, expressamos o nosso interior. Um exemplo disso é quando o olhar entre duas pessoas se encontram, ou seja, ambas podem sentir a energia que flui de um para o outro. E dependendo do tipo de energia, a repercussão física é imediata: sensações físicas de calor, frio, arrepios, etc., fluxo que muitas vezes não conseguimos sustentar por constrangimento e medo da intimidade.
No entanto, o olhar observado na profundidade de seu significado não é somente a visualização de algo concreto, real que está à nossa frente... ou o olhar ancestral que seduz e oprime. O olhar através da janela da alma é uma projeção do conhecimento pré-adquirido e, ao mesmo tempo, a captação de conhecimentos que estão sendo incorporados no presente, fruto de experiências que envolvem também sentimentos e emoções genuínamente humanas.
No livro "Pergunte a Platão", o seu autor, o filósofo e escritor Lou Marinoff, registra algo interessante sobre a "visão extra" que devemos adquirir através de um olhar que transcenda o mundo das aparências: "Dentro da caverna está o mundo indistinto das aparências, fora da caverna, o mundo ensolarado das idéias ou formas. Ali conquistamos a visão clara e a compreensão profunda da realidade, inclusive da origem de todas as coisas dentro da caverna".
Sendo o olhar, a verdadeira expressão de nosso interior, portanto, o "raio X" de nossas legítimas intenções que transcendem através da janela da alma, é a partir dele que devemos mudar em nós o que precisa ser mudado. E toda mudança interior implica em alterar um padrão comportamental que nos acompanha há muito tempo.
A busca da paz interior pelo processo de erradicação de sentimentos inferiores que nos atormentam desde tempos imemoriais, pode ser o início de uma longa jornada de depuração da alma através da transformação de um olhar que incute medo ou indiferença a quem o capta, em um olhar que transmite confiança, generosidade e amor.
Nesse sentido, conforme descreve Públio José em seu artigo "A força do olhar", a grande diferença entre o olhar de jesus Cristo e o olhar dos homens, "é que o olhar de jesus Cristo expressa amor incondicional, e um dos momentos da comprovação deste fato foi durante a tortura a que Jesus foi submetido na fortaleza de Pilatos. Pedro estava presente e em determinado instante, quando o galo cantou - depois de Pedro ter negado Jesus por três vezes - o olhar do mestre se cruzou com o do apóstolo. O relato bíblico diz que Pedro, após o olhar, "saindo dali, chorou amargamente". Porque foi de choro a sua reação? Porque não foi de ódio? Porque o amor expresso no olhar de Jesus não há violência, mesmo a mínima agressão, e sim compaixão. Pedro ficou desorientado e desandou a chorar. Esperava um olhar de ódio, em troca, recebera um olhar carregado de amor". E completa, Públio José: "A intensidade do olhar de Jesus modificou a sua vida, e o choro foi o reconhecimento de que fora perdoado. O mensageiro? Um simples olhar - um olhar cheio de amor".
E seguindo os olhares deixados por Jesus Cristo, Buda e demais espíritos iluminados que aqui edificaram as suas obras na energia do amor fraternal, este é mais um desafio que enfrenta o homem do terceiro milenio: adquirir um olhar de amor para a vida, porque "olhar nos olhos" é uma das melhores formas de contato humano... uma ponte entre almas que podem caminhar juntas em busca da evolução.
Por:Flávio Bastos

criado por Milady
22:05:54