Decifra a ti mesmo ou devoro-te

Auto-conhecimento é a base para o homem manter-se integrado.

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Arquivo de: Agosto 2009

17.08.09

Culpa

Somos donos de nossos atos, mas não donos de nossos sentimentos. Somos culpados pelo que fazemos, mas não somos culpados pelo que sentimos. Podemos prometer atos, mas não podemos prometer sentimentos. Atos são pássaros engaiolados. Sentimentos são pássaros em vôo". (Mario Quintana)



Conforme supõe o histórico religioso-cristão, Adão e Eva, através do pecado original e a consequente expulsão do paraíso pelo Criador, seriam os responsaveis diretos pelo sentimento de culpa experenciados até hoje pelo homem. Fato agravado ao longo da história do cristianismo, principalmente a partir da época medieval pelo comportamento da Igreja - o chamado "poder espiritual" - que mantinha o domínio das massas ao afirmar, sob a autoridade da Bíblia, o terror dos eternos sofrimentos do inferno e o pavor aterrorizante para os que jamais atingiriam o paraíso celestial se não fossem cristãos e se não admitissem as "revelações" ou interpretação das Escrituras Sagradas elaboradas pela teologia cristã.



Verdade ou não, o fato é que experimentamos durante o decorrer dos séculos o sentimento de culpa como um obstáculo ao nosso crescimento pessoal, profissional e espiritual. Experiência real que indiscriminadamente tem gerado sofrimento, dramas pessoais e somatizado muitas doenças na humanidade.



Para Nietzsche e Freud, o objetivo primario de todo o homem é a satisfação integral de suas necessidades. A partir do momento que isso não ocorre, surge um fenomeno interessante: os instintos voltam-se para trás, para o interior, para dentro do próprio homem. A repressão dos instintos não os eliminam, mas os redirecionam: se eles não obtiverem sucesso em sua evasão, serão introjetados, internalizados. É deste processo que surge a culpa. Em Nietzsche, a doença é oriunda da interiorização do homem - fato que o torna um animal dígno de interesse. Em Freud, ela é vista como um dos maiores empecilhos para a cura de seus doentes. Este tema torna-se central tanto em Nietzsche quanto em Freud: o primeiro relaciona a culpa à moralidade; o segundo relaciona ao diagnóstico das neuroses.



Para o terapeuta alternativo Francisco Gentina, "a culpa e a doença é o aviso que estamos agindo mal. A inconfundível Lei de Ação e Reação mostra no físico as interferências negativas plasmadas no corpo astral pelos pensamentos e atos que geram peso na consciência". E segue: "A autoculpa abala os mecanismos de defesa do organismo e descarrega no orgão mais frágil, todo o veneno gerado pelos cliches mentais. Como clips rodando indefinidamente na mente e a cada acesso na lembrança, glândulas produtoras de anticorpos, não vencendo a demanda, permitem a invasão de substâncias venenosas aos chamados orgãos de choque, instaurando a patologia. Os remédios prescritos mascaram o efeito, mas difícilmente eliminam a causa". E completa: "Estudos científicos comprovam o efeito do perdão nestes casos. Eliminando o ódio, o rancor ou a mágoa, extirpa-se a causa e consequentemente o efeito não tem mais razão de existir, diluindo por si mesmo, baseado no tempo dos sentimentos geradores da situação patológica. Pesquisas sobre o assunto demonstram que a quase totalidade dos óbitos por câncer nas suas mais variadas formas, tiveram as grandes mágoas como causadoras da doença".



Antonio Araujo, psicólogo, informa-nos "que a tarefa da culpa é amar e depender do pior, construindo um mecanismo pessoal e secreto de insatisfação diária, como uma espécie de desafio constante para uma personalidade ambivalente e receosa de tocar aquilo que está tão próximo: viver plenamente". E completa: "O segredo e mistério da dor passam a adquirir um significado quase místico, de expiação por algo que sequer se compreende profundamente..."



COMENTARIO



Se consideramos que a culpa é um sentimento real, que ele existe, assim como o arrependimento e a mágoa são os seus "derivados" mais imediatos que afligem o homem desde tempos imemoriais, podemos questionar: "De quem é a culpa pela existência do sentimento de culpa?"



A ciência oficial faz a sua parte, se esforça, explica até a tênue linha divisória que separa a natureza humana entre o físico e o espiritual. As religiões de fé não raciocinada, geralmente, contribuem para que o sentimento de culpa permaneça agindo indefinidamente nos corações e mentes das pessoas envolvidas por essa negativa energia. No entanto, diante deste confuso quadro que envolve um dos sentimentos mais arraigados ao psiquismo humano, esquecemos que existem as Leis Divinas que regem o Universo, e que, portanto, nos encontramos íntimamente - de corpo e alma - ligados a essas leis....



Nesse sentido, Joanna de Ângelis, em "Culpa e Consciência", através da psicografia de Divaldo P. Franco, esclarece-nos: "A culpa encontra-se esculpida nos alicerces do espírito e manifesta-se em expressão consciente ou através de complexos mecanismos de autopunição consciente. Suas raízes podem estar fixadas no pretérito - erros e crimes ocultos que não foram justiçados - ou em passado próximo, nas ações da extravagância ou da delinquência".



Sobre o arrependimento que liberta do sentimento de culpa, Joanna de Ângelis registra: "Arrepender-se de comportamentos equivocados, de práticas mesquinhas, egoísticas e arbitrárias é perfeitamente normal. A soma das tuas ações positivas quitará o débito moral que contraíste perante a Divina Consciência, porquanto, o importante não é a quem se faz o bem ou o mal, e sim, a ação em si mesmo em relação à harmonia universal. Como consequência, a culpa deve ser superada mediante ações positivas, reabilitadoras, que resultarão dos pensamentos íntimos, enobrecedores".



O processo de autoconhecimento, tanto no sentido psicológico quanto no sentido espiritual, ou seja, no sentido de sua interdimensionalidade, nos direciona para que a culpa leve-nos à reflexão, e a reflexão com fé nos leve à ação, à reparação e à eliminação da própria culpa. No entanto, temos observado que o desgosto pela vida nos dias atuais é consequência direta de uma supervalorização da culpa, que não passa, geralmente, ao arrependimento que constrói e liberta. Ao contrário, o homem, ainda preso à inércia e à falta de fé, prefere o lamento à ação, numa clara demonstração de que não está preparado para renovar-se como espírito.



Em "O Livro dos Espíritos", questão 919, Santo Agostinho deixa-nos uma instrução de meditação diária que nos leva a isolar os pontos que devemos reavaliar sobre os quais temos responsabilidade: "Fazei o que fazia quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguem tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma".

Flávio Bastos





A crise de identidade do Masculino


Uma abordagem direta e clara sobre a crise de identidade masculina aconteceu na obra de Robert Moore e Douglas Gillette: "Rei, Guerreiro, Mago e Amante" (Editora,campus-1993). Esgotada. Citando a contracapa: "Na recente entrevista de Bill Moyers com o poeta Robert Bly... um jovem perguntou: onde estão, atualmente, os homens iniciados com o poder? Escrevemos este livro para responder a essa pergunta que preocupa homens e mulheres. No final do século XX, enfrentamos uma crise de identidade masculina de grandes proporções. Cada vez mais, os observadores do cenário contemporâneo - sociólogos, antropólogos e psicólogos profundos - descobrem as arrasadoras dimensões desse fenômeno que afeta a cada um de nós, individualmente, da mesma forma que atinge a sociedade em geral."



No caso brasileiro, não vejo a preocupação de homens e mulheres com a questão em foco, por desconhecerem, em sua maioria, tal fenômeno. Sofremos todos, suas terríveis conseqüências, haja vista que todo o mundo sofre com a falta de líderes autênticos; homens capazes de liderar a execução de um projeto, seja ele de cunho econômico ou social, levando-o a bom termo com a aplicação ética dos recursos usados. Nas atividades públicas a situação é ainda mais caótica, porque existe uma atuação autista das instituições públicas, algumas defasadas de seus códigos funcionais.



A sociedade sofre com falsos líderes que anelam o poder, jogam para consegui-lo e depois fazem dele um meio para exercer influências e amealhar bens numa escala sem limites. Outros poderosos operadores de máquinas de guerra se julgam no direito de defender a "democracia" do outro lado do mundo, levando à morte milhares de seus concidadãos que se pensam heróis, promovendo a morte centenas de milhares nos países onde pretendem "libertar" o povo do ditador de plantão. Esse homem perverso está presente em todos os segmentos da sociedade; desde as famílias abandonadas até nas supremas cortes e muito mais.



A revista Veja no. 2115 de 03 de junho traz uma entrevista com Contardo Calligaris, onde ele explica a angústia de homens contemporâneos com a perda de papéis tradicionais: "O homem passou a não saber mais como ser homem. Alguns encaram os esportes radicais como o que lhes sobra de virilidade. Para outros é a vida sexual." O homem que luta pelo poder a qualquer custo, também poder ser considerado neste contexto. A causa psicológica é a construção de um mundo voltado apenas para o homem, com clara exclusão da mulher, o que criou no homem uma espécie de esterilidade da alma, levnado esse homem desalmado, a criar instituições machistas, abandonando o poder de gestação do feminino, como as estruturas religiosas judaico-cristãs: A mulher só serve para ser professora ou enfermeira, enquanto ao homem é facultado o acesso a todos os postos hierárquicos. A falta de acesso ao arquétipo feminino deixa o homem sem a intuição e a compaixão.



Arquétipo é a causa primordial de toda existência. Segundo Jung, o Self é o arquétipo em torno do qual se reúne toda a estrutura psíquica. Do arquétipo de Deus deriva-se o arquétipo do Rei e deste o arquétipo do Pai, que é o que nos interessa nesse texto. Do livro "A filha do HERÓI - Summus editorial-SP, 1997. pag. 107. Maureen Murdoc, citamos: "O PAI como arquétipo está carregado com o poder e o privilégio de um Rei, Protetor, Sacerdote e até mesmo Deus nas famílias e sociedades há milhares de anos. A lei, a ordem e a hierarquia são corporificadas pelo arquétipo do Pai, assim como a promessa de proteção, sustento e identidade. Uma manifestação positiva do arquétipo do Pai é o rei sábio, em torno de quem gira o reino (sua família). Como Salomão, do Velho Testamento, o rei sábio utiliza seu poder com justiça e compaixão e nutre os que o rodeiam. A manifestação negativa do arquétipo do Pai, por outro lado é o rei patriarcal, que exerce seu poder de modo rígido e injusto. Ele governa o reino (sua família) de maneira autocrática, invocando o medo e exigindo total obediência e lealdade. Como o rei Herodes, do Novo Testamento, o rei patriarcal é um tirano, aniquilando qualquer um que ameace a sua autoridade. O pai pessoal é dotado com o poder misterioso e a força do arquétipo do Pai, e assim como o arquétipo, manifesta tanto as qualidades positivas quanto as negativas."



A identidade é a principal virtude a ser passada pelo arquétipo do Pai, dela se origina a auto-estima, a segurança com que o indivíduo vai envolver e se desenvolver no mundo, sendo a timidez, as inadequações, a falta de condições para assumir a própria vida, marcas no corpo como tatuagens e pirces, além da busca de alucinógenos para aliviar a angústia existencial, a busca de grupos afetivos; as características mais evidentes da busca de identidade negada pela fraqueza da paternidade. O pai transmite as qualidades positivas do arquétipo pelo envolvimento com os filhos, coisa que no mundo atual, o que hoje eles não colocam como prioridade. Além do que o conceito de família tem se tornando muito flexível, em parte pela ascensão da mulher ao mundo corporativo, reagindo à desvalorização que o patriarcado lhe impôs, e em parte pela falta de estabilidade dos laços afetivos. Os padrões de relações familiares mudaram e não restauram mais antigos valores. Por outro lado ainda não se chegou a um modelo de relação afetiva em família que garanta crescimento a todos em parceria e harmonia.



O sucesso de filmes sobre heróis, tirados da história, da ficção ou inventados como mutantes, denota a busca utópica de um líder. Algumas dessas obras, analisadas à luz da Psicologia Junguiana, revela-nos a ação de todos os arquétipos principais como, O Rei, Guerreiro, Mago e Amante, como: "o senhor dos anéis", onde todos esse arquétipos interagem na construção de um mundo melhor.



A restauração das qualidades do arquétipo do Pai negadas no desenvolvimento do indivíduo, que deveriam ocorrer principalmente entre cinco e dez anos, antes do desenvolvimento hormonal, depende de psicoterapia profunda, se possível com as restaurações dos papéis, mas passa pelo indispensável desenvolvimento do autoconhecimento, sobretudo no que se refere à conscientização dos conteúdos inconscientes, com a utilização dos sonhos como ferramenta principal de acesso ao drama inconsciente. Como disse Einstein: "a solução de um problema passa sempre pelo conhecimento de suas causas". Sem isso, a sociedade entenderá como herói apenas os vencedores dos esportes e atores de TV.

Osmar Francisco dos Santos

Psicólogo Clínico Junguiano


02.08.09

A Energia que emana do Olhar

A história da humanidade tem mostrado que o nosso olhar sobre a vida passa pelos valores herdados de nossos ancestrais guerreiros. Basta-nos, para isso, observarmos que a cultura do orgulho, da ambição, da sedução e demais jogos de poder são energias que "incorporamos" e projetamos através do olhar que busca ascenção no mundo das aparências, onde geralmente, ainda perseguimos a vitória... o triunfo a qualquer custo.

Dizia o escritor grego Plutarco sobre o olhar guerreiro: "Os olhos lançam dardos de fogo que golpeiam tudo aquilo que veem"; ou a inscrição na múmia da pitonisa egípcia muito respeitada nos tempos do faraó Amenófis IV, onde se lia: "Desperta da tua prostração e o teu olhar triunfará sobre tudo quanto se faça contra ti".

Portanto, o olhar humano é uma consequência coletiva de nossa cultura milenar baseada em valores guerreiros, mas também, uma decorrência específica baseada em escolhas individuais da trajetória de vivências de cada espírito. Crendices à parte, o conhecimento espiritual assegura que o olhar possui uma força proveniente de uma irradiação que surge do olho humano. Esta teoria é conhecida desde a remota antiguidade, testificada na Bíblia e em vários escritos gregos e romanos.



O olhar humano esconde uma força que para muitos pode passar despercebida; contudo, muitas vezes, um simples olhar expressa mais de cem palavras. A sua energia pode produzir muitos efeitos diferentes, pois com ela, expressamos o nosso interior. Um exemplo disso é quando o olhar entre duas pessoas se encontram, ou seja, ambas podem sentir a energia que flui de um para o outro. E dependendo do tipo de energia, a repercussão física é imediata: sensações físicas de calor, frio, arrepios, etc., fluxo que muitas vezes não conseguimos sustentar por constrangimento e medo da intimidade.



No entanto, o olhar observado na profundidade de seu significado não é somente a visualização de algo concreto, real que está à nossa frente... ou o olhar ancestral que seduz e oprime. O olhar através da janela da alma é uma projeção do conhecimento pré-adquirido e, ao mesmo tempo, a captação de conhecimentos que estão sendo incorporados no presente, fruto de experiências que envolvem também sentimentos e emoções genuínamente humanas.



No livro "Pergunte a Platão", o seu autor, o filósofo e escritor Lou Marinoff, registra algo interessante sobre a "visão extra" que devemos adquirir através de um olhar que transcenda o mundo das aparências: "Dentro da caverna está o mundo indistinto das aparências, fora da caverna, o mundo ensolarado das idéias ou formas. Ali conquistamos a visão clara e a compreensão profunda da realidade, inclusive da origem de todas as coisas dentro da caverna".



Sendo o olhar, a verdadeira expressão de nosso interior, portanto, o "raio X" de nossas legítimas intenções que transcendem através da janela da alma, é a partir dele que devemos mudar em nós o que precisa ser mudado. E toda mudança interior implica em alterar um padrão comportamental que nos acompanha há muito tempo.



A busca da paz interior pelo processo de erradicação de sentimentos inferiores que nos atormentam desde tempos imemoriais, pode ser o início de uma longa jornada de depuração da alma através da transformação de um olhar que incute medo ou indiferença a quem o capta, em um olhar que transmite confiança, generosidade e amor.



Nesse sentido, conforme descreve Públio José em seu artigo "A força do olhar", a grande diferença entre o olhar de jesus Cristo e o olhar dos homens, "é que o olhar de jesus Cristo expressa amor incondicional, e um dos momentos da comprovação deste fato foi durante a tortura a que Jesus foi submetido na fortaleza de Pilatos. Pedro estava presente e em determinado instante, quando o galo cantou - depois de Pedro ter negado Jesus por três vezes - o olhar do mestre se cruzou com o do apóstolo. O relato bíblico diz que Pedro, após o olhar, "saindo dali, chorou amargamente". Porque foi de choro a sua reação? Porque não foi de ódio? Porque o amor expresso no olhar de Jesus não há violência, mesmo a mínima agressão, e sim compaixão. Pedro ficou desorientado e desandou a chorar. Esperava um olhar de ódio, em troca, recebera um olhar carregado de amor". E completa, Públio José: "A intensidade do olhar de Jesus modificou a sua vida, e o choro foi o reconhecimento de que fora perdoado. O mensageiro? Um simples olhar - um olhar cheio de amor".



E seguindo os olhares deixados por Jesus Cristo, Buda e demais espíritos iluminados que aqui edificaram as suas obras na energia do amor fraternal, este é mais um desafio que enfrenta o homem do terceiro milenio: adquirir um olhar de amor para a vida, porque "olhar nos olhos" é uma das melhores formas de contato humano... uma ponte entre almas que podem caminhar juntas em busca da evolução.

Por:Flávio Bastos