Decifra a ti mesmo ou devoro-te

Auto-conhecimento é a base para o homem manter-se integrado.

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Categoria: Relacionamentos

17.08.09

Culpa

Somos donos de nossos atos, mas não donos de nossos sentimentos. Somos culpados pelo que fazemos, mas não somos culpados pelo que sentimos. Podemos prometer atos, mas não podemos prometer sentimentos. Atos são pássaros engaiolados. Sentimentos são pássaros em vôo". (Mario Quintana)



Conforme supõe o histórico religioso-cristão, Adão e Eva, através do pecado original e a consequente expulsão do paraíso pelo Criador, seriam os responsaveis diretos pelo sentimento de culpa experenciados até hoje pelo homem. Fato agravado ao longo da história do cristianismo, principalmente a partir da época medieval pelo comportamento da Igreja - o chamado "poder espiritual" - que mantinha o domínio das massas ao afirmar, sob a autoridade da Bíblia, o terror dos eternos sofrimentos do inferno e o pavor aterrorizante para os que jamais atingiriam o paraíso celestial se não fossem cristãos e se não admitissem as "revelações" ou interpretação das Escrituras Sagradas elaboradas pela teologia cristã.



Verdade ou não, o fato é que experimentamos durante o decorrer dos séculos o sentimento de culpa como um obstáculo ao nosso crescimento pessoal, profissional e espiritual. Experiência real que indiscriminadamente tem gerado sofrimento, dramas pessoais e somatizado muitas doenças na humanidade.



Para Nietzsche e Freud, o objetivo primario de todo o homem é a satisfação integral de suas necessidades. A partir do momento que isso não ocorre, surge um fenomeno interessante: os instintos voltam-se para trás, para o interior, para dentro do próprio homem. A repressão dos instintos não os eliminam, mas os redirecionam: se eles não obtiverem sucesso em sua evasão, serão introjetados, internalizados. É deste processo que surge a culpa. Em Nietzsche, a doença é oriunda da interiorização do homem - fato que o torna um animal dígno de interesse. Em Freud, ela é vista como um dos maiores empecilhos para a cura de seus doentes. Este tema torna-se central tanto em Nietzsche quanto em Freud: o primeiro relaciona a culpa à moralidade; o segundo relaciona ao diagnóstico das neuroses.



Para o terapeuta alternativo Francisco Gentina, "a culpa e a doença é o aviso que estamos agindo mal. A inconfundível Lei de Ação e Reação mostra no físico as interferências negativas plasmadas no corpo astral pelos pensamentos e atos que geram peso na consciência". E segue: "A autoculpa abala os mecanismos de defesa do organismo e descarrega no orgão mais frágil, todo o veneno gerado pelos cliches mentais. Como clips rodando indefinidamente na mente e a cada acesso na lembrança, glândulas produtoras de anticorpos, não vencendo a demanda, permitem a invasão de substâncias venenosas aos chamados orgãos de choque, instaurando a patologia. Os remédios prescritos mascaram o efeito, mas difícilmente eliminam a causa". E completa: "Estudos científicos comprovam o efeito do perdão nestes casos. Eliminando o ódio, o rancor ou a mágoa, extirpa-se a causa e consequentemente o efeito não tem mais razão de existir, diluindo por si mesmo, baseado no tempo dos sentimentos geradores da situação patológica. Pesquisas sobre o assunto demonstram que a quase totalidade dos óbitos por câncer nas suas mais variadas formas, tiveram as grandes mágoas como causadoras da doença".



Antonio Araujo, psicólogo, informa-nos "que a tarefa da culpa é amar e depender do pior, construindo um mecanismo pessoal e secreto de insatisfação diária, como uma espécie de desafio constante para uma personalidade ambivalente e receosa de tocar aquilo que está tão próximo: viver plenamente". E completa: "O segredo e mistério da dor passam a adquirir um significado quase místico, de expiação por algo que sequer se compreende profundamente..."



COMENTARIO



Se consideramos que a culpa é um sentimento real, que ele existe, assim como o arrependimento e a mágoa são os seus "derivados" mais imediatos que afligem o homem desde tempos imemoriais, podemos questionar: "De quem é a culpa pela existência do sentimento de culpa?"



A ciência oficial faz a sua parte, se esforça, explica até a tênue linha divisória que separa a natureza humana entre o físico e o espiritual. As religiões de fé não raciocinada, geralmente, contribuem para que o sentimento de culpa permaneça agindo indefinidamente nos corações e mentes das pessoas envolvidas por essa negativa energia. No entanto, diante deste confuso quadro que envolve um dos sentimentos mais arraigados ao psiquismo humano, esquecemos que existem as Leis Divinas que regem o Universo, e que, portanto, nos encontramos íntimamente - de corpo e alma - ligados a essas leis....



Nesse sentido, Joanna de Ângelis, em "Culpa e Consciência", através da psicografia de Divaldo P. Franco, esclarece-nos: "A culpa encontra-se esculpida nos alicerces do espírito e manifesta-se em expressão consciente ou através de complexos mecanismos de autopunição consciente. Suas raízes podem estar fixadas no pretérito - erros e crimes ocultos que não foram justiçados - ou em passado próximo, nas ações da extravagância ou da delinquência".



Sobre o arrependimento que liberta do sentimento de culpa, Joanna de Ângelis registra: "Arrepender-se de comportamentos equivocados, de práticas mesquinhas, egoísticas e arbitrárias é perfeitamente normal. A soma das tuas ações positivas quitará o débito moral que contraíste perante a Divina Consciência, porquanto, o importante não é a quem se faz o bem ou o mal, e sim, a ação em si mesmo em relação à harmonia universal. Como consequência, a culpa deve ser superada mediante ações positivas, reabilitadoras, que resultarão dos pensamentos íntimos, enobrecedores".



O processo de autoconhecimento, tanto no sentido psicológico quanto no sentido espiritual, ou seja, no sentido de sua interdimensionalidade, nos direciona para que a culpa leve-nos à reflexão, e a reflexão com fé nos leve à ação, à reparação e à eliminação da própria culpa. No entanto, temos observado que o desgosto pela vida nos dias atuais é consequência direta de uma supervalorização da culpa, que não passa, geralmente, ao arrependimento que constrói e liberta. Ao contrário, o homem, ainda preso à inércia e à falta de fé, prefere o lamento à ação, numa clara demonstração de que não está preparado para renovar-se como espírito.



Em "O Livro dos Espíritos", questão 919, Santo Agostinho deixa-nos uma instrução de meditação diária que nos leva a isolar os pontos que devemos reavaliar sobre os quais temos responsabilidade: "Fazei o que fazia quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguem tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma".

Flávio Bastos





A crise de identidade do Masculino


Uma abordagem direta e clara sobre a crise de identidade masculina aconteceu na obra de Robert Moore e Douglas Gillette: "Rei, Guerreiro, Mago e Amante" (Editora,campus-1993). Esgotada. Citando a contracapa: "Na recente entrevista de Bill Moyers com o poeta Robert Bly... um jovem perguntou: onde estão, atualmente, os homens iniciados com o poder? Escrevemos este livro para responder a essa pergunta que preocupa homens e mulheres. No final do século XX, enfrentamos uma crise de identidade masculina de grandes proporções. Cada vez mais, os observadores do cenário contemporâneo - sociólogos, antropólogos e psicólogos profundos - descobrem as arrasadoras dimensões desse fenômeno que afeta a cada um de nós, individualmente, da mesma forma que atinge a sociedade em geral."



No caso brasileiro, não vejo a preocupação de homens e mulheres com a questão em foco, por desconhecerem, em sua maioria, tal fenômeno. Sofremos todos, suas terríveis conseqüências, haja vista que todo o mundo sofre com a falta de líderes autênticos; homens capazes de liderar a execução de um projeto, seja ele de cunho econômico ou social, levando-o a bom termo com a aplicação ética dos recursos usados. Nas atividades públicas a situação é ainda mais caótica, porque existe uma atuação autista das instituições públicas, algumas defasadas de seus códigos funcionais.



A sociedade sofre com falsos líderes que anelam o poder, jogam para consegui-lo e depois fazem dele um meio para exercer influências e amealhar bens numa escala sem limites. Outros poderosos operadores de máquinas de guerra se julgam no direito de defender a "democracia" do outro lado do mundo, levando à morte milhares de seus concidadãos que se pensam heróis, promovendo a morte centenas de milhares nos países onde pretendem "libertar" o povo do ditador de plantão. Esse homem perverso está presente em todos os segmentos da sociedade; desde as famílias abandonadas até nas supremas cortes e muito mais.



A revista Veja no. 2115 de 03 de junho traz uma entrevista com Contardo Calligaris, onde ele explica a angústia de homens contemporâneos com a perda de papéis tradicionais: "O homem passou a não saber mais como ser homem. Alguns encaram os esportes radicais como o que lhes sobra de virilidade. Para outros é a vida sexual." O homem que luta pelo poder a qualquer custo, também poder ser considerado neste contexto. A causa psicológica é a construção de um mundo voltado apenas para o homem, com clara exclusão da mulher, o que criou no homem uma espécie de esterilidade da alma, levnado esse homem desalmado, a criar instituições machistas, abandonando o poder de gestação do feminino, como as estruturas religiosas judaico-cristãs: A mulher só serve para ser professora ou enfermeira, enquanto ao homem é facultado o acesso a todos os postos hierárquicos. A falta de acesso ao arquétipo feminino deixa o homem sem a intuição e a compaixão.



Arquétipo é a causa primordial de toda existência. Segundo Jung, o Self é o arquétipo em torno do qual se reúne toda a estrutura psíquica. Do arquétipo de Deus deriva-se o arquétipo do Rei e deste o arquétipo do Pai, que é o que nos interessa nesse texto. Do livro "A filha do HERÓI - Summus editorial-SP, 1997. pag. 107. Maureen Murdoc, citamos: "O PAI como arquétipo está carregado com o poder e o privilégio de um Rei, Protetor, Sacerdote e até mesmo Deus nas famílias e sociedades há milhares de anos. A lei, a ordem e a hierarquia são corporificadas pelo arquétipo do Pai, assim como a promessa de proteção, sustento e identidade. Uma manifestação positiva do arquétipo do Pai é o rei sábio, em torno de quem gira o reino (sua família). Como Salomão, do Velho Testamento, o rei sábio utiliza seu poder com justiça e compaixão e nutre os que o rodeiam. A manifestação negativa do arquétipo do Pai, por outro lado é o rei patriarcal, que exerce seu poder de modo rígido e injusto. Ele governa o reino (sua família) de maneira autocrática, invocando o medo e exigindo total obediência e lealdade. Como o rei Herodes, do Novo Testamento, o rei patriarcal é um tirano, aniquilando qualquer um que ameace a sua autoridade. O pai pessoal é dotado com o poder misterioso e a força do arquétipo do Pai, e assim como o arquétipo, manifesta tanto as qualidades positivas quanto as negativas."



A identidade é a principal virtude a ser passada pelo arquétipo do Pai, dela se origina a auto-estima, a segurança com que o indivíduo vai envolver e se desenvolver no mundo, sendo a timidez, as inadequações, a falta de condições para assumir a própria vida, marcas no corpo como tatuagens e pirces, além da busca de alucinógenos para aliviar a angústia existencial, a busca de grupos afetivos; as características mais evidentes da busca de identidade negada pela fraqueza da paternidade. O pai transmite as qualidades positivas do arquétipo pelo envolvimento com os filhos, coisa que no mundo atual, o que hoje eles não colocam como prioridade. Além do que o conceito de família tem se tornando muito flexível, em parte pela ascensão da mulher ao mundo corporativo, reagindo à desvalorização que o patriarcado lhe impôs, e em parte pela falta de estabilidade dos laços afetivos. Os padrões de relações familiares mudaram e não restauram mais antigos valores. Por outro lado ainda não se chegou a um modelo de relação afetiva em família que garanta crescimento a todos em parceria e harmonia.



O sucesso de filmes sobre heróis, tirados da história, da ficção ou inventados como mutantes, denota a busca utópica de um líder. Algumas dessas obras, analisadas à luz da Psicologia Junguiana, revela-nos a ação de todos os arquétipos principais como, O Rei, Guerreiro, Mago e Amante, como: "o senhor dos anéis", onde todos esse arquétipos interagem na construção de um mundo melhor.



A restauração das qualidades do arquétipo do Pai negadas no desenvolvimento do indivíduo, que deveriam ocorrer principalmente entre cinco e dez anos, antes do desenvolvimento hormonal, depende de psicoterapia profunda, se possível com as restaurações dos papéis, mas passa pelo indispensável desenvolvimento do autoconhecimento, sobretudo no que se refere à conscientização dos conteúdos inconscientes, com a utilização dos sonhos como ferramenta principal de acesso ao drama inconsciente. Como disse Einstein: "a solução de um problema passa sempre pelo conhecimento de suas causas". Sem isso, a sociedade entenderá como herói apenas os vencedores dos esportes e atores de TV.

Osmar Francisco dos Santos

Psicólogo Clínico Junguiano


02.08.09

A Energia que emana do Olhar

A história da humanidade tem mostrado que o nosso olhar sobre a vida passa pelos valores herdados de nossos ancestrais guerreiros. Basta-nos, para isso, observarmos que a cultura do orgulho, da ambição, da sedução e demais jogos de poder são energias que "incorporamos" e projetamos através do olhar que busca ascenção no mundo das aparências, onde geralmente, ainda perseguimos a vitória... o triunfo a qualquer custo.

Dizia o escritor grego Plutarco sobre o olhar guerreiro: "Os olhos lançam dardos de fogo que golpeiam tudo aquilo que veem"; ou a inscrição na múmia da pitonisa egípcia muito respeitada nos tempos do faraó Amenófis IV, onde se lia: "Desperta da tua prostração e o teu olhar triunfará sobre tudo quanto se faça contra ti".

Portanto, o olhar humano é uma consequência coletiva de nossa cultura milenar baseada em valores guerreiros, mas também, uma decorrência específica baseada em escolhas individuais da trajetória de vivências de cada espírito. Crendices à parte, o conhecimento espiritual assegura que o olhar possui uma força proveniente de uma irradiação que surge do olho humano. Esta teoria é conhecida desde a remota antiguidade, testificada na Bíblia e em vários escritos gregos e romanos.



O olhar humano esconde uma força que para muitos pode passar despercebida; contudo, muitas vezes, um simples olhar expressa mais de cem palavras. A sua energia pode produzir muitos efeitos diferentes, pois com ela, expressamos o nosso interior. Um exemplo disso é quando o olhar entre duas pessoas se encontram, ou seja, ambas podem sentir a energia que flui de um para o outro. E dependendo do tipo de energia, a repercussão física é imediata: sensações físicas de calor, frio, arrepios, etc., fluxo que muitas vezes não conseguimos sustentar por constrangimento e medo da intimidade.



No entanto, o olhar observado na profundidade de seu significado não é somente a visualização de algo concreto, real que está à nossa frente... ou o olhar ancestral que seduz e oprime. O olhar através da janela da alma é uma projeção do conhecimento pré-adquirido e, ao mesmo tempo, a captação de conhecimentos que estão sendo incorporados no presente, fruto de experiências que envolvem também sentimentos e emoções genuínamente humanas.



No livro "Pergunte a Platão", o seu autor, o filósofo e escritor Lou Marinoff, registra algo interessante sobre a "visão extra" que devemos adquirir através de um olhar que transcenda o mundo das aparências: "Dentro da caverna está o mundo indistinto das aparências, fora da caverna, o mundo ensolarado das idéias ou formas. Ali conquistamos a visão clara e a compreensão profunda da realidade, inclusive da origem de todas as coisas dentro da caverna".



Sendo o olhar, a verdadeira expressão de nosso interior, portanto, o "raio X" de nossas legítimas intenções que transcendem através da janela da alma, é a partir dele que devemos mudar em nós o que precisa ser mudado. E toda mudança interior implica em alterar um padrão comportamental que nos acompanha há muito tempo.



A busca da paz interior pelo processo de erradicação de sentimentos inferiores que nos atormentam desde tempos imemoriais, pode ser o início de uma longa jornada de depuração da alma através da transformação de um olhar que incute medo ou indiferença a quem o capta, em um olhar que transmite confiança, generosidade e amor.



Nesse sentido, conforme descreve Públio José em seu artigo "A força do olhar", a grande diferença entre o olhar de jesus Cristo e o olhar dos homens, "é que o olhar de jesus Cristo expressa amor incondicional, e um dos momentos da comprovação deste fato foi durante a tortura a que Jesus foi submetido na fortaleza de Pilatos. Pedro estava presente e em determinado instante, quando o galo cantou - depois de Pedro ter negado Jesus por três vezes - o olhar do mestre se cruzou com o do apóstolo. O relato bíblico diz que Pedro, após o olhar, "saindo dali, chorou amargamente". Porque foi de choro a sua reação? Porque não foi de ódio? Porque o amor expresso no olhar de Jesus não há violência, mesmo a mínima agressão, e sim compaixão. Pedro ficou desorientado e desandou a chorar. Esperava um olhar de ódio, em troca, recebera um olhar carregado de amor". E completa, Públio José: "A intensidade do olhar de Jesus modificou a sua vida, e o choro foi o reconhecimento de que fora perdoado. O mensageiro? Um simples olhar - um olhar cheio de amor".



E seguindo os olhares deixados por Jesus Cristo, Buda e demais espíritos iluminados que aqui edificaram as suas obras na energia do amor fraternal, este é mais um desafio que enfrenta o homem do terceiro milenio: adquirir um olhar de amor para a vida, porque "olhar nos olhos" é uma das melhores formas de contato humano... uma ponte entre almas que podem caminhar juntas em busca da evolução.

Por:Flávio Bastos 



04.07.09

Coração X Mente

O Coração
:: Elisabeth Cavalcante ::

Como transformar nosso agir habitual, baseado nos conceitos que predominam em nossa mente, em um novo modo de viver, onde o direcionamento é dado, acima de tudo, pela nossa percepção interior?

Para muitos, este conceito é absolutamente incompreensível, mas entendê-lo passa a ser fácil quando mudamos o foco da cabeça para o coração. Ao contrário do que a maioria das pessoas imagina, o coração não é um mau conselheiro.

Esta idéia tem como fundamento a confusão entre o coração e as emoções. Estas, sim, podem nos fazer tomar atitudes equivocadas quando se encontram em desequilíbrio.

As emoções negativas sempre se relacionam às necessidades do ego, como aprovação, aceitação, e quando estas não são satisfeitas, geram as reações habituais de mágoa, ressentimento e o desejo de dar o troco.

O coração é a sede do espírito, a dimensão divina do ser, aquela porção de nós onde reside a sabedoria e a consciência mais elevada. Ouvi-lo exige, fundamentalmente, que entremos na dimensão do silêncio, algo somente possível quando a mente e o ego deixam de ser os diretores de nossa vida, para tornarem-se coadjuvantes, cuja participação depende de nossa permissão.

A alegria, a criatividade e, acima de tudo, um relaxamento interior que nos leva a abandonar qualquer ansiedade ou desespero para lidar com as situações que a vida nos apresenta, são o resultado natural desta mudança de enfoque.

Um dos mais surpreendentes mistérios da existência é que, quanto mais utilizamos nossa luz interior, mais ela cresce. Aos poucos, ouvir nosso coração vai se tornando algo tão natural que nenhum esforço grandioso é necessário. Basta que direcionemos nossa atenção para dentro, e a voz interior suavemente sussurra sua verdade.

"O coração é o centro negligenciado. Quando você começa a prestar atenção nele, ele começa a funcionar. Quando ele começa a funcionar, a energia que estava automaticamente indo para a mente, começa a se mover através do coração. E o coração está mais próximo do centro de energia. O centro de energia está no umbigo - assim, bombear energia para a cabeça é, na verdade, um trabalho árduo.

É para isso que existem todos os sistemas educacionais: para ensiná-lo a bombear energia do centro, diretamente para a cabeça. Para ensiná-lo a se desviar do coração. Dessa maneira, nenhuma escola, nenhum colégio, nenhuma universidade ensina a sentir. Eles aniquilam o sentir, porque sabem que, se você sentir, não poderá pensar.

Se você sentir muito, então a energia ficará parada no centro do coração, não irá para a cabeça. Ela só pode ir para a cabeça quando o centro do coração é completamente negado. Ela tem de ir para algum lugar, tem de encontrar uma saída. Se o coração não for a saída, ela irá para a cabeça.

De fato, todo o sistema educacional desenvolvido em todo o mundo é para ensiná-lo a evitar o coração, a como tornar-se mais e mais mental e a como bombear a energia diretamente para a cabeça.

Assim, o amor é negado, o sentimento é negado, condenado - é quase um pecado sentir. A pessoa tem de ser lógica e racional, não emocional. Se você for emocional, as pessoas dirão que você é infantil - de certa forma, eles estão literalmente certos, porque só uma criança sente. Uma pessoa adulta instruída, culta, condicionada, pára de sentir. Ela se torna quase seca, madeira morta - não flui mais nenhum sumo dali. Daí haver tanto sofrimento: o sofrimento é por causa da cabeça.

A cabeça não pode celebrar, não há nenhuma celebração possível através da cabeça - ela pode pensar sobre e sobre e sobre, mas ela não pode celebrar. A celebração acontece através do coração.

Assim, a primeira coisa é começar a sentir cada vez mais e mais. Torne-se uma morada de amor, um santuário de amor; este é o primeiro passo. Uma vez que você dê este primeiro passo, o segundo será muito, muito fácil.

Primeiro, você ama - a metade da jornada está completa. E assim como é fácil mover-se da cabeça para o coração, é ainda mais fácil mover-se do coração para o umbigo. No umbigo você é simplesmente um ser, puro ser".
OSHO, For Madmen Only.

27.06.09

Esquizofrenia(Jung)

Desde seus tempos de estudante, Jung era interessado na esquizofrenia (então conhecida como dementia praecox) . À medida que desenvolvia seu conceito do inconsciente coletivo e a teoria dos arquétipos, foi-se convencendo de que a psicose em geral e a esquizofrenia em particular poderiam ser explicadas como (a) uma dominação do EGO pelos conteúdos do inconsciente coletivo e (b) a dominação da personalidade por um COMPLEXO ou complexos dissociados ( ARQUÉTIPO; INCONSCIENTE).

A implicação básica disso era que uma forma de expressão e comportamento esquizofrênicos poderiam ser significativos, desde que fosse possível descobrir aquilo que significavam. Foi onde a técnica da ASSOCIAÇÃO foi usada pela primeira vez e, posteriormente, a AMPLIFICAÇÃO como um método de ver o material clínico num contexto de motivos culturais e religiosos. Isso levou, firme e decisivamente, ao rompimento com Freud, que ocorreu com a publicação de Symbols of Transformation (Símbolos da Transformação), uma análise mediante associação e amplificação do prelúdio de um caso de esquizofrenia (CW 5).

Mas, e quanto à origem da esquizofrenia? A evolução do pensamento de Jung revela sua incerteza. Ele está seguro de que a esquizofrenia é um distúrbio psicossomático, de que mudanças na química do corpo e distorções da personalidade estão de alguma forma interligadas. A questão era saber quais destas deveriam ser consideradas primárias.

O chefe de Jung, Bleuler, pensava que algum tipo de toxina ou veneno era desenvolvido pelo corpo, que então acarretava um distúrbio psicológico . A contribuição básica de Jung foi reavaliar a importância da PSIQUE o suficiente para inverter os elementos: a atividade psicológica pode levar a mudanças somáticas (CW 3, parág. 318). Porém, Jung tentou combinar suas idéias com as de Bleuler, mediante o uso de uma engenhosa fórmula. Conquanto a misteriosa toxina pudesse existir perfeitamente em todos nós, somente teria seu efeito devastador se circunstâncias psicológicas fossem favoráveis para isso. Alternativamente, uma pessoa poderia ser geneticamente predisposta a desenvolver a toxina e este fator estaria ligado inevitavelmente a um ou mais complexos.

Afirmar que a esquizofrenia poderia ser qualquer coisa diferente de uma anormalidade neurológica inata era, em seu tempo, revolucionário. Postular uma causa psicogênica em uma estrutura psicossomática geral (posição final de Jung, CW 3, parág. 553 e segs.) possibilitou-lhe propor tratamento psicológico (PSICOTERAPIA) como apropriado. A decodificação da comunicação esquizofrênica e tratamento em um milieu terapêutico formam linhas centrais na abordagem existencial-analítica desenvolvida por Binswanger (1945), Laing (1967) e, até certo ponto, são detectáveis nas tendências psiquiátricas contemporâneas.

Uma abordagem contemporânea e controvertida da esquizofrenia é a idéia de que a esquizofrenia não é realmente uma doença, mas, antes, uma medida daquilo que nossa sociedade considera normal e tolerável. Daí, como sugerem psiquiatras que se opõem à psiquiatria convencional, não é nada mais que uma classificação psiquiátrica: o mapa não é o território (cf. Szasz, 1962). O pensamento de Jung não vai tão longe assim, porém ele sublinhava que a “psicose latente” era muito mais prevalente do que em geral se admite e que o “normal” jamais é um termo suficientemente descritivo de um indivíduo. Uma nova discriminação, também sintônica com a opinião contemporânea, é que uma aparente falência nervosa de fato poderia ser uma forma de falência das defesas, um prelúdio iniciatório necessário para um novo desenvolvimento.

A experiência clínica de Jung com a esquizofrenia parece ter sido, principalmente, com sua forma “produtiva” (delírios, graves perturbações de pensamento, idéias de referência, etc.). Ele não escreve muita coisa sobre o característico “embotamento afetivo” esquizofrênico, tão marcante, hoje, em hospitais psiquiátricos. Sabe-se que as doenças mentais mudam de características de acordo com as transformações culturais – é uma razão por que sua existência é contestada. Por exemplo, o predomínio de paralisias histéricas na Alemanha e na Áustria durante os anos de 1890 podia ter algo a ver com a introdução de esquemas de seguro para acidentes ferroviários naquela época.

Uma fuga esquizofrênica pode ser considerada uma reação à ausência de significado e alienação da sociedade industrial moderna e, em particular, à experiência de uma extrema privação psicológica conseqüente à pobreza. Em circunstâncias socialmente empobrecidas, o esforço exigido para se manter vigilância sobre o inconsciente, por assim dizer, significa que qualquer espécie de emoção é reprimida ou dissociada da personalidade. O elemento de depressão em tal “psicose situacional aguda” também é algo não explorado por Jung. Aqui, precisamos lê-lo como um homem de seu tempo.

Diversos psicólogos analíticos (por exemplo, Perry, 1962; Redfearn, 1978) aplicaram referencial teórico desenvolvimentista à esquizofrenia. Os conteúdos da mente esquizofrênica permanecem arquetípicos em virtude da falha da mãe em ser mediadora deles para seu bebê – isto é, em reduzi-lo de algum modo a uma escala humana de modo que possam ser integrados. Eis por que o “embotamento” aparece como uma forma inconsciente de autocontrole. Trabalhar com pacientes esquizofrênicos ou gravemente perturbados requer do analista fazer uso considerável de sua contratransferência.