Decifra a ti mesmo ou devoro-te

Auto-conhecimento é a base para o homem manter-se integrado.

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Terra Blog

Categoria: Jung

27.06.09

Instinto de Vida(Jung)

Quando Jung escreve sobre o instinto de vida, está necessariamente falando também sobre o INSTINTO DE MORTE. Isto porque seu interesse estava no modo como forças progressivas e regressivas se misturam na PSIQUE. Por exemplo, símbolos e imagens de morte podem ser compreendidos em termos de sua significação e sentido para a vida, ao passo que experiências e solicitações de vida necessitam ser compreendidas em seus aspectos relacionados com a morte. A vida vista como uma preparação para a morte, a morte como integrante da vida, resume sua perspectiva .

O uso de Jung do termo “instinto de vida” não é tão preciso quanto o de Freud. Enfatiza pouco a tensão entre os instintos autopreservativos e a sexualidade. (O “instinto de vida” de Jung lembra mais o “Eros” de Freud – isto é, uma observação mais abrangente da tendência do homem de reunião, consolidação, unidade e daí, progresso.). Entretanto, as referências de Jung ao instinto de vida relacionam-se mais com uma ENERGIA geral de vida, um élan vital ou animação. Contudo, isso provoca um problema conceitual; pois, se a energia é equiparada ao instinto de vida, mas ao mesmo tempo alimenta o instinto de morte, então a conclusão teria de ser que o instinto de vida é que abastece o instinto de morte. O dualismo seria substituído por um modelo em que o instinto de vida é primário. Para evitar isso, Jung normalmente retornava à idéia da energia como neutra, servindo indiferentemente aos instintos de vida e de morte – e ambos os instintos então são vistos servindo à psique e/ ou ao homem

Esquizofrenia(Jung)

Desde seus tempos de estudante, Jung era interessado na esquizofrenia (então conhecida como dementia praecox) . À medida que desenvolvia seu conceito do inconsciente coletivo e a teoria dos arquétipos, foi-se convencendo de que a psicose em geral e a esquizofrenia em particular poderiam ser explicadas como (a) uma dominação do EGO pelos conteúdos do inconsciente coletivo e (b) a dominação da personalidade por um COMPLEXO ou complexos dissociados ( ARQUÉTIPO; INCONSCIENTE).

A implicação básica disso era que uma forma de expressão e comportamento esquizofrênicos poderiam ser significativos, desde que fosse possível descobrir aquilo que significavam. Foi onde a técnica da ASSOCIAÇÃO foi usada pela primeira vez e, posteriormente, a AMPLIFICAÇÃO como um método de ver o material clínico num contexto de motivos culturais e religiosos. Isso levou, firme e decisivamente, ao rompimento com Freud, que ocorreu com a publicação de Symbols of Transformation (Símbolos da Transformação), uma análise mediante associação e amplificação do prelúdio de um caso de esquizofrenia (CW 5).

Mas, e quanto à origem da esquizofrenia? A evolução do pensamento de Jung revela sua incerteza. Ele está seguro de que a esquizofrenia é um distúrbio psicossomático, de que mudanças na química do corpo e distorções da personalidade estão de alguma forma interligadas. A questão era saber quais destas deveriam ser consideradas primárias.

O chefe de Jung, Bleuler, pensava que algum tipo de toxina ou veneno era desenvolvido pelo corpo, que então acarretava um distúrbio psicológico . A contribuição básica de Jung foi reavaliar a importância da PSIQUE o suficiente para inverter os elementos: a atividade psicológica pode levar a mudanças somáticas (CW 3, parág. 318). Porém, Jung tentou combinar suas idéias com as de Bleuler, mediante o uso de uma engenhosa fórmula. Conquanto a misteriosa toxina pudesse existir perfeitamente em todos nós, somente teria seu efeito devastador se circunstâncias psicológicas fossem favoráveis para isso. Alternativamente, uma pessoa poderia ser geneticamente predisposta a desenvolver a toxina e este fator estaria ligado inevitavelmente a um ou mais complexos.

Afirmar que a esquizofrenia poderia ser qualquer coisa diferente de uma anormalidade neurológica inata era, em seu tempo, revolucionário. Postular uma causa psicogênica em uma estrutura psicossomática geral (posição final de Jung, CW 3, parág. 553 e segs.) possibilitou-lhe propor tratamento psicológico (PSICOTERAPIA) como apropriado. A decodificação da comunicação esquizofrênica e tratamento em um milieu terapêutico formam linhas centrais na abordagem existencial-analítica desenvolvida por Binswanger (1945), Laing (1967) e, até certo ponto, são detectáveis nas tendências psiquiátricas contemporâneas.

Uma abordagem contemporânea e controvertida da esquizofrenia é a idéia de que a esquizofrenia não é realmente uma doença, mas, antes, uma medida daquilo que nossa sociedade considera normal e tolerável. Daí, como sugerem psiquiatras que se opõem à psiquiatria convencional, não é nada mais que uma classificação psiquiátrica: o mapa não é o território (cf. Szasz, 1962). O pensamento de Jung não vai tão longe assim, porém ele sublinhava que a “psicose latente” era muito mais prevalente do que em geral se admite e que o “normal” jamais é um termo suficientemente descritivo de um indivíduo. Uma nova discriminação, também sintônica com a opinião contemporânea, é que uma aparente falência nervosa de fato poderia ser uma forma de falência das defesas, um prelúdio iniciatório necessário para um novo desenvolvimento.

A experiência clínica de Jung com a esquizofrenia parece ter sido, principalmente, com sua forma “produtiva” (delírios, graves perturbações de pensamento, idéias de referência, etc.). Ele não escreve muita coisa sobre o característico “embotamento afetivo” esquizofrênico, tão marcante, hoje, em hospitais psiquiátricos. Sabe-se que as doenças mentais mudam de características de acordo com as transformações culturais – é uma razão por que sua existência é contestada. Por exemplo, o predomínio de paralisias histéricas na Alemanha e na Áustria durante os anos de 1890 podia ter algo a ver com a introdução de esquemas de seguro para acidentes ferroviários naquela época.

Uma fuga esquizofrênica pode ser considerada uma reação à ausência de significado e alienação da sociedade industrial moderna e, em particular, à experiência de uma extrema privação psicológica conseqüente à pobreza. Em circunstâncias socialmente empobrecidas, o esforço exigido para se manter vigilância sobre o inconsciente, por assim dizer, significa que qualquer espécie de emoção é reprimida ou dissociada da personalidade. O elemento de depressão em tal “psicose situacional aguda” também é algo não explorado por Jung. Aqui, precisamos lê-lo como um homem de seu tempo.

Diversos psicólogos analíticos (por exemplo, Perry, 1962; Redfearn, 1978) aplicaram referencial teórico desenvolvimentista à esquizofrenia. Os conteúdos da mente esquizofrênica permanecem arquetípicos em virtude da falha da mãe em ser mediadora deles para seu bebê – isto é, em reduzi-lo de algum modo a uma escala humana de modo que possam ser integrados. Eis por que o “embotamento” aparece como uma forma inconsciente de autocontrole. Trabalhar com pacientes esquizofrênicos ou gravemente perturbados requer do analista fazer uso considerável de sua contratransferência.

Psicose(Jung)

Um estado da personalidade em que “alguma coisa” desconhecida assume POSSESSÃO da PSIQUE em um maior ou menor grau e defende sua existência não intimidada pela lógica, persuasão ou VONTADE . O INCONSCIENTE invade, assumindo o controle do EGO consciente, e, uma vez que o inconsciente não tem funções organizadas nem centralizadas, a conseqüência é que existe uma confusão psíquica e um caos psíquico (ver ARQUÉTIPO). Se a estranha linguagem metafórica do inconsciente puder ser comunicada à CONSCIÊNCIA, porém, então, a psicose pode ter um efeito curativo. Quando a ENERGIA reprimida assim liberada pode ser canalizada proveitosamente, a personalidade consciente tem acesso a novas fontes de poder para a regeneração.

Estas idéias, originalmente apresentadas por Jung em 1917, porém reconsideradas e reformulas diversas vezes, representam uma abordagem da psicose da perspectiva da PSICOLOGIA PROFUNDA: e, muito embora, nas décadas recentes, o comportamento psicológico tenha provado ser manejável através da administração de drogas modernas, as condições psíquicas associadas a tais estados não se alteraram. O ataque de psicose pode ser súbito, muito embora a erupção possa ter estado preparando-se durante muito tempo. E, embora uma neurose possa ocultar uma psicose, o material suscitado por uma neurose é, em geral, compreensível em termos humanos ao passo que o da psicose não é. Aqui, uma fantasia incontrolável deixa-se soltar.

No que concerne à etiologia, Jung encontrava dificuldade para dizer que via na predisposição psicológica inata de uma pessoa alguns dos determinantes de sintomas posteriores, porém, não a causa única da psicose ( ESQUIZOFRENIA; PATOLOGIA). Se uma condição psicótica é acessível à psicoterapia, pode-se fazer uma tentativa de fortalecer o ego o bastante para que os conteúdos psíquicos possam ser integrados. Entretanto, se não fosse feita nenhuma elaboração, a opinião de Jung era de que, com toda probabilidade, o processo simbólico permaneceria caótico e fora de controle. Embora muitas vezes seja possível que um observador de fora, analista ou psiquiatra, compreenda formas psicóticas de expressão, o mecanismo compensatório normal da psique fica perturbado de tal modo que se verifica uma enérgica intrusão de imagens inconscientes. Paradoxalmente, o mesmo processo instável da intrusão pelo simbolismo inconsciente ocorre em ocasiões de intensa inspiração criativa e conversão religiosa; mas, em ambos os casos, não existe um continente não-pessoal com força suficiente (obra-de-arte ou RITUAL) para que estabilidade e um senso de propósito possam ser mantidos até que um equilíbrio individual se restabeleça e um SIGNIFICADO se torne aparente.

26.04.09

Neurose

 

Jung mostrava resistência à tendência na psiquiatria de sua época a gastar um esforço imenso na classificação correta da doença mental. Assim, exceto quanto a uma ampla distinção entre a neurose e a PSICOSE (especificamente entre a posição e força do EGO na HISTERIA e na ESQUIZOFRENIA, respectivamente), uma categorização bem desenvolvida não existe em seus escritos (CW 2, parág. 1070). Não há paralelo, por exemplo, com a distinção de Freud entre as neuroses reais, derivadas da própria sexualidade, e as psiconeuroses (tais como a histeria), derivadas de um conflito psíquico incontrolável. Entretanto, como afirma Laplanche e Pontalis, “dificilmente é possível alegar que uma distinção efetiva tenha sido estabelecida entre as estruturas da neurose, psicose e perversão. Em conseqüência, nossa própria definição de neurose está inevitavelmente aberta à crítica de que é demasiadamente ampla” (1980).

A atitude geral de Jung era de que a pessoa com a neurose era mais apropriada para receber a atenção que a própria neurose. Uma neurose não deveria estar isolada do resto da personalidade, mas, antes, ser vista como permeando o todo da PSIQUE perturbada psicopatologicamente. Daí, na ANÁLISE, é o conteúdo dos complexos o aspecto crucial, não uma avaliação clínica refinada .

Quanto a definir neurose, Jung falava em desenvolvimento unilateral ou não-equilibrado. Às vezes o desequilíbrio está entre o ego e um ou mais complexos, outras vezes Jung usava seu esquema da psique para se referir às dificuldades do ego com relação às outras instâncias psíquicas tais como a anima ou o animus e a SOMBRA . Portanto, a neurose é uma falha (provisória) da capacidade natural da psique de exercer uma FUNÇÃO AUTO-REGULADORA DA PSIQUE .

Ao mesmo tempo, os sintomas neuróticos podem ver vistos como algo mais que resultantes de um distúrbio ou desequilíbrio subjacente. Podem ser considerados tentativas para uma autocura (ver PROCESSO DE CURA) ao chamarem a atenção de uma pessoa para o fato de que ela está fora de equilíbrio, está sofrendo de uma des-ordem* .

O quadro clínico da neurose muitas vezes, mas nem sempre, contém o sentimento de falta ou ausência de significado. Isso levou Jung a se referir metaforicamente a uma neurose típica como um problema religioso (CW 11, parágs. 500-15). 

A relutância de Jung em usar a redução a fatores infantis como explicação significa que ele não deixou nenhuma teoria abrangente da ETIOLOGIA DA NEUROSE. Contudo, a idéia do complexo pode ser usada descritivamente para esclarecer a constituição de uma neurose. No entanto, às vezes Jung parece sugerir que a neurose é uma questão de constituição inerente (ver ARQUÉTIPO; MÉTODOS REDUTIVO E SINTÉTICO; REALIDADE PSÍQUICA).

.* Dis-ease, no original inglês; literalmente, na composição deste termo: “falta de bem-estar”.

18.04.09

Cura(Jung)

 

Em geral aceita como significando a transformação da doença em saúde. Jung referia-se ao difundido preconceito de que a ANÁLISE provê alguma coisa parecida com uma cura e de que, uma vez terminada, uma pessoa pode esperar estar objetivamente “curada”. Porém, dizia, não é este o caso; pois é improvável que possa algum dia existir uma forma de PSICOTERAPIA que efetuará a “cura”.

Jung dizia ainda que está na natureza da vida apresentar obstáculos ao seres humanos, às vezes na forma de doença, e esses obstáculos, quando não excessivos, nos fornecem oportunidades para REFLEXÃO sobre formas impróprias de adaptação do EGO, de modo que tenhamos uma oportunidade de descobrir atitudes mais adequadas a fazer os ajustes necessários. Contudo, estava ciente de que tais mudanças são válidas somente por um limitado período de tempo, após o qual um problema pode voltar a se instalar. À parte isso, a INTEGRAÇÃO de experiências problemáticas pode ser considerada como propiciada pelo SELF e eventualmente levar à INDIVIDUAÇÃO. Daí a atitude do analista com relação à cura pode ajudar o paciente a aceitar que uma condição neurótica poderia ser um fator potencialmente positivo em sua vida .

Devido à sua natureza dialética, a análise às vezes é chamada de “cura pela conversa” e, em virtude da conexão conceitual que Jung estabeleceu entre PSIQUE e SIGNIFICADO, também foi chamada de “cura de almas”. Entretanto, Jung admitia apenas excepcionalmente essa denominação, pois fazia uma firme diferenciação entre o trabalho da análise e a cura pastoral das almas oferecida pelos clérigos. Via a análise mais similar a uma intervenção médica com a finalidade de expor os conteúdos do INCONSCIENTE e tornando-os acessíveis para uma integração na CONSCIÊNCIA. Aqui ele se identificava com Freud e com a tradição psicanalítica.

No entanto, ao mesmo tempo, porque via um sofrimento neurótico como potencialmente significativo e aceitava um PONTO DE VISTA TELEOLÓGICO, reconhecia que o trabalho do analista deve servir às necessidades não atendidas tanto pelos médicos como pelos clérigos, relutantes em aceitar a possibilidade de uma função religiosa espontânea operante na psique. Assim, achava que aqueles que chegavam até ele deveriam ser notificados da impossibilidade de uma cura definitiva, mas, simultaneamente,ser preparados para reconhecer a possibilidade de existir um significado simbólico inconsciente em seu sofrimento.